sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

Constipados e disentéricos

O romance morreu? Não, meu filho, o romance continua vivo e forte.

Aos que pararam aqui por acaso, convém esclarecer que uso a palavra romance para me referir à narrativa longa, gênero literário ao qual os francófonos chamam roman, os hispanófonos novela e os anglófonos novel. Decidi fazer esse esclarecimento bobo para evitar que algum perdido nos atalhos da web, porventura buscando confissões amorosas, se detenha nestas linhas mais tempo do que o necessário para um clique do mouse.

O romance, como eu afirmava, está vivo. A crítica é que não anda muito bem de saúde.

Em recantos cada vez mais minguados da grande imprensa existe a crítica jornalística, ou, para definir com mais propriedade, a resenha, que é um exercício de opinião. Uma opinião culta e bem formada, sem dúvida, que se torna ainda mais deliciosa de ler quanto mais o jornalista se empenha em debochar do livro, desde que, é claro, o leitor seja qualquer pessoa no mundo, menos o infeliz autor do livro.

A crítica jornalística cumpre duas funções: distrai por alguns minutos o assinante do jornal ou revista e propagandeia a obra literária. Na hiperinflação de referências a que somos submetidos, o elogio e a ofensa têm valor igual: divulgam.

Já a crítica propriamente dita, que é a crítica acadêmica, feita a partir das universidades, pelos mais qualificados leitores, intoxicou-se nos miasmas da Teoria Literária, e se alterna entre os padeceres da constipação e os da disenteria.

Acadêmicos constipados não conseguem digerir nada que tenha vindo depois da geração de 1930 ou da Semana de 22. Há casos graves que não toleram nada produzido depois do século XVII.

Os disentéricos até conseguem mordiscar a literatura contemporânea, mas passam mal e põem para fora borbotões logorreicos que entopem os encanamentos e as conexões da lógica do discurso. Eles são mais desagradáveis que os constipados porque fedem.

Vou citar dois exemplos de crítica disentérica.

Exemplo 1: uma professora acarpetada de diplomas atacou dois poetas contemporâneos dizendo:

Se é inegável que a retradicionalização frívola corresponde à desilusão com o processo modernizador, com a falta de alternativas nacionais à integração capitalista, isso não justifica a rendição à sociabilidade triunfante e o decorrente recalque do subdesenvolvimento como problema estético-político.

Tentando forçar uma interpretação para além dos sintomas de dislexia grave da professora, acredito que ela quis dizer que os dois poetas, descontentes com o mundo contemporâneo, buscaram refúgio na tradição literária, nos exemplos dos antecessores, e isso seria errado. Por que seria errado? Impossível saber.

Exemplo número 2: um doutorando novinho afirmou:

A literatura, se serve para alguma coisa, serve para contar a história da linguagem — não é a linguagem que serve para contar uma história, qualquer que seja essa história.

Mais um caso sério de dislexia, e possivelmente de distúrbio de déficit de atenção. Uma possível tentativa de traduzir essa meleca disléxica é supor que ele afirma que a linguagem e a literatura servem apenas para fazer referência uma à outra, num jogo de espelhos que dispensa a trama que é narrada e o indivíduo que a lê. Sendo assim, nada nos resta senão abandonar as bibliotecas e voltar a viver no topo das árvores. Uga-buga.

Outro esclarecimento, este bem mais importante que a advertência aos que pararam aqui por acaso: sei que muitos professores da área de literatura, nas mais diversas universidades, são imunes aos males da constipação e da disenteria. Sei que esses professores não se apegam às teoretices disléxicas e dialogam de modo produtivo com a literatura contemporânea. A eles, dedico este desabafo como um alerta: por favor, não se contaminem! Aos outros, os intoxicados da teoria, eu peço: juntem tudo que vocês têm de Lukács, Habermas, Adorno e o catzo e enfiem no derrière do Derrida.

terça-feira, 8 de novembro de 2011

Açorianos!

Posso afirmar, com orgulho, que sou dono de uma escultura do Xico Stockinger. Adriana Lunardi, a Dindi, tem duas.

Estão as três perfiladas na estante aqui em casa. Três troféus do Prêmio Açorianos de Literatura. Para mim, o de melhor narrativa longa. Para ela, o de melhor livro de contos e o de revelação do ano. São láureas de 1997.

Neste ano de 2011, estou de novo entre os três finalistas de narrativa longa:

http://coordenacaodolivro.blogspot.com/2011/11/finalistas-do-acorianos-2011.html,

Se vier outro guerreiro do Stockinger, será uma honra. Se não, brindarei ao vencedor.

domingo, 30 de outubro de 2011

Prêmio Quem de Literatura 2011

— Sabe o Max Mallmann?

— Quem?

— Isso aí. Viu que ele é finalista?

— Finalista do quê?

— Do que, não. Do Quem.

— Quem?

— O Max Mallmann.

— Quem é Max Mallmann?

— O cara que é finalista do prêmio.

— Que prêmio?

— Quem!

— Foi isso que eu perguntei!

— E eu respondi.

— Não respondeu! Eu não sei quem é Max Mallmann!

— Ele é finalista do prêmio!

— Que prêmio?

— Quem!

— O Max Mallmann!

— Então? Já foi lá votar?

— Votar em quem?!

— No Max Mallmann.

— Quem é Max Mallmann?

— O finalista do prêmio!

— Qual prêmio?

— Quem!

— É isso que eu quero saber!!!

Vote aqui:
http://revistaquem.globo.com/Revista/Quem/1,,EMI275211-9531,00.html

sábado, 3 de setembro de 2011

A vendedora de fósforos - nova resenha

Resenha de A vendedora de fósforos (Rocco, 2011), novo livro de Adriana Lunardi, no caderno PROSA e VERSO do Globo.



A vendedora de fósforos

Resenha de A vendedora de Fósforos, novo Livro de Adriana Lunardi, no jornal Valor Econômico.




segunda-feira, 23 de maio de 2011

Publius Desiderius Dolens

Algumas pessoas me perguntam qual é a origem do nome do protagonista de O centésimo em Roma.

Dolens é o particípio presente do verbo latino doleo, e significa "que causa dor".

Em português, a palavra derivada do latim dolens é "dolente". Segundo o Houaiss, dolente é : 1) que sente e/ou expressa dor; lamentoso, magoado, queixoso. 2) fig. semelhante à expressão de dor. 3) música de caráter triste.

Então, o cognome Dolens tem esses dois aspectos: é o que provoca a dor e o que sofre com a dor.

Desiderius é um nome de família que inventei a partir do verbo latino desidero, que significa "sentir falta de" ou "desejar".

Quanto ao prenome, havia alguns que eram de uso tradicional de determinadas famílias romanas. Não é o caso de Publius que, além de ser bastante comum, ainda remete ao adjetivo latino publicus, que significa "do povo" ou "público".

domingo, 20 de março de 2011

O CENTÉSIMO EM ROMA - como comprar


Todos os caminhos levam a Roma.

Nenhum tem volta.

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O CENTÉSIMO EM ROMA
na loja de sua preferência.

sábado, 24 de julho de 2010

Entrevista

Meus caros,

Vejam a entrevista que dei para Cíntia Borges, da Rocco:

Por que escolheu a Roma Antiga para ambientar seu novo romance?
Por que escolhi a Roma Antiga? Por que não? Eu sou romano. Você também. Todos nós, nascidos no lado ocidental do mundo, somos romanos, porque nossa civilização, nossas crenças, nossas perguntas e nossas tentativas de resposta vieram de Roma. Sem Roma, não conheceríamos os gregos. Sem Roma, não falaríamos português. Sem Roma, não existiria um Brasil.

Sempre gostei de História Antiga, como muita gente. Comecei a estudar sistematicamente o Império Romano depois do 11 de Setembro, como milhares de pessoas. Mas o que me motivou mesmo a escrever O centésimo em Roma foi a possibilidade de ter a primeira metrópole do mundo como cenário para uma narrativa. Sou um urbanoide. Cidades são animais que me interessam. Cidades rosnam e transpiram. Eu queria cheirar o suor da Roma do século I.

O estopim de seu irônico romance seria a visita ao sebo Nova Roma (já aqui um delicioso sarcasmo), onde teria encontrado a obra que o instigou a remendar o passado?
Segundo Mario Quintana, “a verdade é uma mentira que se esqueceu de acontecer”, e Manoel de Barros declarou: “tudo o que eu não invento é falso”. Amparado nos dois, eu diria que tudo o que escrevo é verdade, mesmo que não tenha ocorrido. O sebo Nova Roma existe, a Roma do século I existiu e o carcomido exemplar da Vita Dolentis que me inspirou a escrever o romance é para mim tão tangível quanto os bytes que digito.

Recriar a pretensa obra de um historiador da Antiguidade afasta, aproxima ou provoca o leitor a pensar sobre o que é a verdade histórica?
Não existe verdade histórica. Depois de muito pensar a respeito, decidi que, para mim, qualquer coisa que não possa ser provada matematicamente é ficção. Assim, a História, a Filosofia, a Sociologia, a Antropologia, a Psicologia, a Mitologia e a Teologia seriam apenas subgêneros da narrativa ficcional ou, mais exatamente, seriam “literatura de gênero”, no mesmo patamar da narrativa policial, do romance histórico ou da ficção científica. Por outro lado, como não entendo nada de matemática, considero que a Física e seus derivados pertencem ao reino da magia.

Trebellius Nepos, suposto autor do texto, é um primeiro distanciamento – e, por que não, alter ego – para que você pudesse livremente dar corpo ao romance?
O centésimo em Roma tem dois planos narrativos: um em terceira pessoa, que mostra o “presente” das tramas, e outro em primeira pessoa, em tom memorialístico, no qual Trebellius Nepos, cinquenta anos depois dos fatos, narra as peripécias que viveu ao lado do centurião Desiderius Dolens. Esses dois planos se alternam, se complementam e, de modo sutil, às vezes se contradizem: a narrativa em terceira pessoa vem com o calor do acontecimento; a narrativa em primeira se permite uma reflexão — por vezes deformadora — do acontecido.

Escolher Trebellius Nepos como narrador me deixou livre para criar um jogo de revelação e ocultamento com o verdadeiro protagonista, que é Desiderius Dolens. Aliás, meu alter ego no romance é o Dolens. Nunca havia criado um personagem tão parecido comigo. A principal diferença é que o estilo de vida dele é mais saudável que o meu.

Em seu romance histórico, a intertextualidade dá as cartas a todo momento. Neste sentido, até que ponto ela enriquece, para quem lê, o registro histórico?
No século XXI, mais que pós-modernos, somos pós-utópicos, como diz Flávio Carneiro. Googlados, blogados e twittados, somos todos inter e hiper textuais. Engendrando e assumindo citações, paráfrases e anacronismos, eu apenas ajo como uma criatura da nossa época. Para mim, seria impossível trabalhar de outro jeito. Como ignorar a sensação de que tudo já foi escrito?

Seriam as metrópoles de hoje – com seus jogos políticos, de interesses e idiossincrasias próprias –, guardadas as devidas proporções, “reedições” da Roma Antiga, a Cidade Eterna?
Não aconteceu nada em Nova York, em Londres, em Paris ou no Rio que não tenha acontecido séculos antes em Roma. Metrópoles são animais que nascem e crescem em variados climas e terrenos, mas conservam sempre o mesmo temperamento.

Embora atrapalhado, o protagonista Desiderius Dolens é um sujeito preparado, mas que não consegue ascender à condição de nobre e acaba fadado a um cargo na mais baixa divisão da polícia local. De homem de potencial sucesso a escravo do fracasso, este típico anti-herói é uma crítica ao despreparo da nossa polícia?
Nunca pensei em Dolens como policial, ou mesmo como soldado. Acho que ele próprio se considera uma espécie de servidor público polivalente. No ano 68 d.C., mandam-no investigar a morte de um senador, como já o haviam mandado tapar buracos nas estradas da Germânia ou trucidar bárbaros. São tarefas que ele precisa cumprir para garantir seu emprego. Dolens não é movido pelo senso de dever ou pelo desejo de justiça, mas pelo instinto de sobrevivência. Tenho certeza de que, se pudesse, ele preferiria passar a vida bem sossegado num gabinete, preenchendo relatórios. Infelizmente, o momento histórico o obriga a agir como herói — ou como vilão, dependendo do ponto de vista.

Em suas “Notas diversas”, ao fim do livro, você reafirma um senso comum de que “tudo está em Shakespeare”. No entanto, apesar das 12 citações do bardo inglês ao longo da narrativa, é em Machado de Assis que mora sua referência mais curiosa. Do Bruxo do Cosme Velho, você “rouba” o título, a epígrafe e o último parágrafo de seu livro. Seria esta uma forma de redenção tupiniquim de que também “tudo está em Machado”?
Não sei se tudo está em Machado. Só sei que eu estou em Machado. Sem Machado, eu não existiria. E só espero que o Bruxo do Cosme Velho não se revire no túmulo com esta minha confissão.

Quando você reproduz com fidelidade em seu livro um excerto de Machado de Assis, em pleno século XXI, que novos significados ambiciona provocar e contextualizar?
Nas “Notas diversas”, ao final do livro, cito este trecho do artigo Notícia da Atual Literatura Brasileira — Instinto de Nacionalidade, de Machado de Assis:
...e perguntarei mais se o Hamlet, o Otelo, o Júlio César, a Julieta e Romeu
têm alguma coisa com a história inglesa nem com o território britânico, e se,
entretanto, Shakespeare não é, além de um gênio universal, um poeta
essencialmente inglês.
Não há dúvida que uma literatura, sobretudo uma
literatura nascente, deve principalmente alimentar-se dos assuntos que lhe
oferece a sua região; mas não estabeleçamos doutrinas tão absolutas que a
empobreçam. O que se deve exigir do escritor, antes de tudo, é certo sentimento
íntimo, que o torne homem do seu tempo e do seu país, ainda quando trate de
assuntos remotos no tempo e no espaço. Um notável crítico da França, analisando
há tempos um escritor escocês, Masson, com muito acerto dizia que do mesmo modo
que se podia ser bretão sem falar sempre de tojo, assim Masson era bem escocês,
sem dizer palavra do cardo, e explicava o dito acrescentando que havia nele um
scotticismo interior, diverso e melhor do que se fora apenas superficial.
O motivo da citação? Muito simples: essas linhas me absolvem. Machado diz que poderei continuar — e serei inevitavelmente — brasileiro, mesmo me ocupando de “assuntos remotos no tempo e no espaço”, desde que eu mantenha e cultive o “sentimento íntimo” que me faz pertencente ao meu tempo e ao meu país — e à língua portuguesa, eu acrescentaria.
É libertadora essa lição machadiana. Afinal de contas, se ao escritor brasileiro é exigido empenho na construção de uma identidade nacional, por que não construí-la a partir de Roma, que é o berço de todo o Ocidente? Aqui no Brasil, já faz quinhentos anos que somos ocidentais. E latinos. E romanos.
Ave!

segunda-feira, 17 de maio de 2010

O centésimo em Roma no JB

Cultura
Romance reconstitui Império Romano com bom humor

Alvaro Costa e Silva, Jornal do Brasil


RIO - O centésimo em Roma, de Max Mallmann, agrada e surpreende: é um bem-humorado romance histórico escrito com base em uma sólida pesquisa, com direito a epígrafes de Plutarco e Machado de Assis. Para se ter uma ideia de quanto o autor é apaixonado e pesquisou o assunto, basta ler as extensas “Notas diversas (ou o quê, quem, onde, quando, por quê e como, mas não nessa ordem)” que fecham o volume. O herói é o ambicioso centurião Publius Desiderius Dolens, que, depois de anos combatendo bárbaros na Germânia, onde ganhou o epíteto de Carniceiro de Bonna, está de volta às vielas da cidade eterna. Isso em 68 d.C., quando as legiões romanas dominavam o mundo. Nero, o insano, imperava. Nesta entrevista, Max Mallmann fala de seu fascínio pela antiguidade, da pesquisa que realizou para escrever o livro e de como o cinema e a literatura veem a Roma Antiga.

Uma das epígrafes de O centésimo em Roma é de Plutarco. Você pesquisou muito? A quantidade de informações que o livro apresenta é espantosa.

Desde 2005, quando comecei a trabalhar n'O centésimo em Roma, soube que teria de lidar com um volume monstruoso de informações. O desafio seria tecer com elas uma narrativa que não se tornasse maçante. Espero ter conseguido. Li Plutarco, especialmente as Vidas de Galba e Otho. Li Suetônio, li Tácito, li um pouco de Dion Cássio, outro tanto de Flávio Josefo, algo de Plínio, o Velho e mais um tanto de Cornelius Celsus, e vasculhei historiadores contemporâneos como Paul Veyne, Adrian Goldsworthy e Pierre Grimal, isso para citar apenas os nomes principais da “estante romana” que tenho no quarto. Pesquisei obsessivamente: antes de começar a escrever, durante a escrita e continuo a pesquisar agora, com o livro já nas livrarias. Não consigo nem quero abandonar meus romanos.

Outra das epígrafes vem de Machado de Assis, que também empresta título à obra. É mais fácil do que se pensa juntar Machado e Roma Antiga?

É bastante fácil. Machado era leitor de Tácito, Suetônio e Plutarco. Em Dom Casmurro, em Memórias póstumas de Brás Cubas e em vários contos, como o Um homem célebre, do qual tirei o título, há menções a esses autores. Assim, a ponte de mil e oitocentos anos que une Plutarco e Machado de Assis nas duas epígrafes de O centésimo em Roma é bem mais curta do que parece.

Que autores clássicos da história romana são seus preferidos?

Tácito, sempre. Sou fã de Tácito. Ele escrevia maravilhosamente bem. Tentei imitá-lo o mais que pude. É uma pena que quase não haja traduções em português das obras de Tácito. Minha edição preferida é em espanhol, com tradução de José Luis Moralejo Alvarez. Também gosto muito de Suetônio, porque ele se ocupava das pequenas maledicências que valem ouro para um ficcionista.

Você gosta das recriações romanceadas: Eu, Claudio, de Robert Graves e outras do tipo?

Gosto. Li Robert Graves, Marguerite Yourcenar e alguns outros, como Theodore H. White e seu César no Rubicão. Até Bertolt Brecht fez sua recriação de Roma, com Os negócios do Senhor Júlio César.

E dos filmes da velha Hollywood?

Ah, a velha Hollywood! Onde todos os romanos tinham olhos azuis e se sentiam muito à vontade a fazer refeições, cortejar donzelas ou mesmo cochilar usando a couraça das legiões, que podia pesar dez quilos e não era lá muito confortável. E viviam com tanta seriedade os seus melodramas... Não sei dizer se é apesar ou por causa do exagero, mas gosto dos velhos filmes hollywood-romanos. Tenho especial carinho pelo Júlio César do Rex Harrison, que interpretava seu papel com a dor de quem sabia que, antes do final do filme, a Cleópatra Elizabeth Taylor acabaria na cama com o Marco Antônio Richard Burton.

E das séries recentes, a exemplo de Roma, produzida pela tevê a cabo?

Gostei de Roma, da HBO. A cenografia e o figurino eram perfeitos. E o roteirista e produtor Bruno Heller tomou uma decisão dramatúrgica que funcionou muito bem: as três décadas passadas desde a Guerra das Gálias até o triunfo de Augusto apareceram nas duas temporadas da série como se fossem um período de sete ou oito anos. Num livro, essa aceleração do tempo seria quase uma trapaça, mas na TV ficou ótimo.

A vida de Brian, de Monty Python?

A vida de Brian é um de meus filmes preferidos. Tenho o DVD e volta e meia o revejo. Há uma cena que, além de inesquecível, é exemplificativa do legado romano para a civilização ocidental. Reg, interpretado por John Cleese, é o líder da Frente do Povo da Judeia e, diante do seu grupo de conspiradores, lança a pergunta retórica: os romanos tiraram tudo o que tínhamos, e o que nos deram em troca? Um dos conspiradores, timidamente, ergue o braço e sugere: o aqueduto? Outro cria coragem e fala no saneamento. Mais alguém menciona as estradas. E a irrigação. E a medicina. E a educação. E o vinho. E os banhos. E a ordem pública... Reg, contrariado, tem de reformular a pergunta: Tudo bem. Mas além do saneamento, da medicina, da educação, do vinho, da ordem pública, da irrigação, das estradas e da água potável, o que mais os romanos fizeram por nós? Depois de um breve silêncio, outro conspirador diz: eles trouxeram a paz. Reg fica furioso.

Acaba de sair no Brasil uma pequena novela do escritor catalão Eduardo Mendoza, A assombrosa viagem de Pompônio Flato, cuja ação se desenrola um pouco antes da narrada em seu livro. No de Mendoza, Jesus é um menino. Você já leu o livro? Pois é: os dois tratam a Roma Antiga com humor. Por que a opção?

Não li ainda A assombrosa viagem de Pompônio Flato, mas já o incluí na minha lista de futuras compras. Até onde pude perceber, Eduardo Mendonza, com os romanos dele, é um pouquinho mais simpático ao cristianismo do que eu com os meus... Quanto à opção pelo humor, aconteceu simplesmente porque não vejo outra. Não só na literatura, mas na vida. O humor está presente em tudo o que faço. Até, espero, nesta entrevista.

O centurião Publius Desiderius Dolens, anti-herói do seu romance, é um sofredor como indica seu nome? Ou uma vítima?

O adjetivo dolens significa doloroso, o que tanto pode indicar aquele que sofre quanto aquele que causa o sofrimento. Desiderius Dolens é um pouco das duas coisas. Em seus piores dias, ele certamente se considera uma vítima. Mas, apesar da pouca autoestima, ele se orgulha de, teimosamente, resistir aos maus fados. Ele não é um semideus; é um sobrevivente.

O seu livro dava um filme? Com quem nos papéis principais?

Talvez O centésimo em Roma pudesse dar um filme, sim. Mas não seria uma adaptação fácil. Enquanto escrevo, meus personagens não têm rosto nem voz. Eles são vultos nebulosos feitos de palavras. Se eu fosse pensar num ator para viver Dolens, quem seria? Alguém com uma cara meio esquisita, um olhar forte e algum carisma que o tornasse simpático. E que fosse ao mesmo tempo bom de drama e de comédia. Talvez, quem sabe, alguém parecido com o Ray Milland, com a idade que ele tinha quando fez Farrapo humano, do Billy Wilder, em 1945.

CLIQUE AQUI para ler a entrevista na íntegra
21:02 - 14/05/2010

terça-feira, 11 de maio de 2010

Temporalidades

Recebi notícias de meu amigo John Titor. Ele está no Paquistão, ou estará, ou esteve. Em se tratando dele, nunca sei direito que tempos verbais usar. Conheci Titor no réveillon do milênio. Ele ainda não tinha se tornado uma celebridade na internet e estava ansioso para testemunhar a passagem de 1999 para 2000 nas areias de Copa. Choveu. Muito. E, no meio da multidão de camisetas brancas e sandálias havaianas, havia dois gringos com capas de plástico e botas de borracha: Andrew Carlssin e John Titor. Não sei por onde anda o Carlssin, mas mantenho com o Titor, desde aquela época, uma irregular troca de mensagens virtuais. A última vez que o vi foi em maio de 2005, quando eu estava começando as pesquisas para escrever O centésimo em Roma.

terça-feira, 27 de abril de 2010

O mistério dos carimbos em latim

Conforme prometi, explicarei o significado das frases em “latim macarrônico” que uso para autografar os exemplares de O centésimo em Roma:

MMDCCLXIII
A.U.C.
2763 Ab Urbe Condita (desde a fundação de Roma) — o ano corrente segundo o calendário romano.
MMX
A.D.
2010 Anno Domini (ano do Senhor) — o ano corrente segundo o calendário cristão.

DULCE
PERICULUM
doce perigo (essa era fácil).

VENI
CUM
PAPA!
Vem com o papai! — É o bordão de Desiderius Dolens

COGITO
ERGO
DOLEO
Penso, logo sofro.

COGITO
SUMERE
POTUM
ALTERUM
Penso em pedir outra bebida.

Centurião

Um autêntico centurião romano em miniatura. Fica na estante ao lado do meu computador. Reparem nos óculos escuros e no relógio.

quinta-feira, 15 de abril de 2010

Booktrailer

Já está no ar, ou nos bites, o vídeo promocional de O centésimo em Roma.

Confiram:

Créditos:
Roteiro - Adriana Lunardi
Direção - Maria Camargo e Júlia Fonseca
Animação - Priscila Lopes
Música - Copyright: Kevin MacLeod (http://incompetech.com/). "By default, they are licensed under Creative Commons: By Attribution 3.0" (that file did not state another license).
Apoio - RW Cine

segunda-feira, 12 de abril de 2010

Sinopse

Eis a sinopse de O centésimo em Roma, direto do site da Rocco:
"Ao iniciarmos a leitura de O centésimo em Roma , quinto livro de Max Mallmann, somos transportados para a Roma Antiga, entre os anos 68 e 70 d.C. Recuamos dois milênios no tempo. Nessa viagem ao passado, acompanhamos as atrocidades de imperadores despóticos, convivemos com a ambição e os vícios da aristocracia romana e seguimos os legionários em suas caçadas aos cristãos. Tudo isso no cenário de uma cidade barulhenta, em cujas ruelas estreitas se cruzam pregoeiros, cambistas, mendigos, adivinhos, dentre outros indivíduos de diferentes raças e culturas, vindos de diversos pontos do vasto Império. No bairro pobre, onde mora o protagonista do romance, frequentamos tabernas, tomamos contato com a gente simples que, entregue a si mesma, luta para sobreviver, sem qualquer possibilidade de interferir nos rumos tomados por aquela república sui generis. Gente que, aglomerada nas praças, assiste a cenas violentas decorrentes de insanas disputas pelo poder como se estivesse nos espetáculos circenses, torcendo por uns ou por outros, fazendo apostas para auferir algum lucro. Curiosamente, quanto mais nos enredamos na política e nos costumes desse tempo tão afastado do nosso, mais somos assaltados pela incômoda impressão de que a distância entre aquela realidade e a que vivemos não é tão grande como tínhamos imaginado.

O centésimo em Roma é um romance histórico que, retomando o subgênero nascido no século XIX, afasta-se daquele modelo. O chamado romance histórico clássico, cujo paradigma é a obra de Walter Scott, surgiu num contexto de profunda crença na possibilidade de figuração realista do passado como passo decisivo para a compreensão e resolução dos conflitos do presente. O romance de Mallmann, ao contrário, é fruto de uma época que olha o passado com a descrença dos tempos atuais, sendo que a própria objetividade do discurso histórico é posta sob suspeita. No lugar da visão evolutiva da História, o autor, num diapasão irônico, aponta para uma temporalidade cíclica, para a eterna repetição dos mesmos erros: não é por acaso que o título, a epígrafe e o último parágrafo do livro são retirados da obra de Machado de Assis. Por esse viés, o romance filia-se também à vertente narrativa inaugurada por Umberto Eco, que, inspirado em Jorge Luis Borges, mesclou o tema histórico e o policial, renovando o subgênero com a publicação de O nome da Rosa, em 1980.

O personagem principal de O centésimo em Roma não é, então, um grande herói nobre, idealista, que pretende mudar o mundo. Dolens -aquele que sofre, como indica seu nome - é um homem comum, plebeu, lutando para subir na vida, de preferência sem abrir mão de alguns bons sentimentos, numa sociedade em que todo valor é traduzido em moedas. Figura forte, bem construída pelo autor, Dolens tem tudo para conquistar o público contemporâneo.

Resultado de uma ampla pesquisa em textos de historiadores antigos e modernos, o romance dialoga, através de citações, diretas ou não, com essas obras e com a literatura de diferentes períodos, sem perder o tom coloquial e o bom humor. Consegue, assim, prender a atenção do leitor até a última página."
Por Vera Lúcia Follain de Figueiredo,
Doutora em Letras e professora da PUC-RJ.

domingo, 4 de abril de 2010

O centésimo em Roma na Folha Online

A editora Rocco vai lançar, em abril, o romance histórico "O Centésimo em Roma", do escritor e roteirista Max Mallmann, há 4 anos integrante da equipe do seriado "A Grande Família" (Globo).

Mallmann recria a Cidade Eterna entre os anos 68 e 69 d.C.. Nobres e plebeus, cristãos, judeus, gregos, etíopes, indonésios e germanos convivem em vielas e becos de uma cidade barulhenta que é palco de sangrentas disputas pelo poder.

Cheio de referências --de Tácito a Shakespeare e Machado de Assis--, o romance dialoga com obras de historiadores antigos e modernos e com a literatura de diferentes períodos, em tom coloquial, com bom humor e ritmo, características que Mallmann traz de seu trabalho para a TV.

Max Mallmann estreou na literatura com "Confissão do Minotauro", ganhador do prêmio Nova Literatura do Instituto Estadual do Livro do Rio Grande do Sul.

"Mundo Bizarro", seu 2º romance, foi selecionado pelo Fumproarte, da Prefeitura de Porto Alegre, e ganhou o prêmio Açorianos de melhor romance publicado no Rio Grande do Sul em 1996.

Em 2000, ele passou a fazer parte do catálogo da Rocco, por onde lançou a novela "Síndrome de Quimera", finalista do prêmio Jabuti, e o romance "Zigurate - uma fábula babélica".

Como roteirista, além do seriado "A Grande Família", escreveu também para os programas "Malhação", "Coração de Estudante" e "Carga Pesada". O "Centésimo em Roma", seu quinto romance, chega às livrarias a partir de 3 de abril.

quinta-feira, 1 de abril de 2010

O malabarista inconsciente

A pergunta que me perseguirá pelo resto da vida é Por que Roma? Tenho três respostas, que uso conforme as circunstâncias:

— Por que não? A civilização ocidental é herdeira de Roma. Somos todos romanos;

— Sou um urbanoide. Cenários urbanos sempre me fascinaram. A tentação de ambientar uma narrativa na primeira metrópole do mundo era grande demais;

— Fiquei obcecado pela História de Roma depois do 11 de setembro.

Nada disso é mentira, embora em nenhuma dessas justificativas esteja a verdade completa. Uma variante da pergunta Por que Roma? foi lançada por uma amiga: Por que você não escolheu os gregos?

Porque eles não usavam sapatos. Porque não entendo aquele alfabeto de alfas e ômegas. E porque, se esbarrasse com Platão numa esquina, eu daria uns sopapos nele. Onde é que já se viu exilar os poetas da República?

Nada disso é verdade. Exceto, talvez, minha antipatia por Platão. Mas o que me motivou a preterir gregos em favor de romanos não pode ser elucidado com duas ou três frases de efeito.

Minha escolha por Roma foi inconsciente. Fruto inesperado de muitas neuras e leituras. Depois de vinte anos quase contínuos de psicoterapia, ainda não sei me explicar. Apenas sei mentir lindamente para mim mesmo.

sábado, 27 de março de 2010

Crítica ao verdadismo

Deste meu ponto de vista de criatura que escreve, e que lê, tenho a impressão de que há grande apego no Brasil a um certo realismo exacerbado, como se o leitor quisesse a garantia de que cada palavra impressa é verdade. O apodo “baseado em fatos reais” é bastante valorizado entre nós. Costumo chamar essa distorção hipertrófica do realismo de “verdadismo”. E culpo a tradição verdadista por manter nossa literatura desconfiadamente distante do realismo fantástico, do romance histórico e da literatura de gênero.

Isso é mau?, perguntará você, que veio ao blog. Nem mau e nem bom, eu digo. Só quero lembrar a quem escreve, e sobretudo a quem lê, que a literatura não precisa de limites.

Um amigo, também escritor, uma vez me disse que só conseguia escrever sobre aquilo que esbarrava nele. Pedi outra cerveja e insisti por mais detalhes. Estávamos ele, Adriana Lunardi e eu, no Plebeu em Botafogo. Enquanto a cerveja não chegava, nosso amigo explicou que sua motivação para escrever vinha de pessoas que conhecia, de paixões que vivia, da sua experiência imediata, enfim. Ele achava muito estranho que Adriana tratasse da morte de escritoras do século anterior ou que os protagonistas do romance que eu estava escrevendo fossem sumérios (antes de Roma, explorei a Mesopotâmia).

O Plebeu ia fechar dali a pouco e o errante diálogo etílico seguiu outros rumos. Hoje, recordando esse fiapo de conversa, acredito que também só escrevo sobre aquilo que esbarra em mim. Adriana diria a mesma coisa. Escritores são masoquistas: a gente coça onde dói. A gente escreve para nomear, ressignificar e inflamar a dor da existência.

Narro aquilo que vejo, sinto e sou. Basta ver meus livros. Síndrome de quimera fala de um homem que nasceu com uma serpente enrolada no coração. Zigurate mostra dois imortais que aprenderam muito pouco com a passagem do tempo. O centésimo em Roma conta a história de um centurião que deseja ser promovido.

Sim, o que faço não é realista, mas é real. Mais real do que seria uma descrição exata desta minha rotina meio besta de escritor notívago.

segunda-feira, 8 de março de 2010

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Aos mais curiosos, aí vão os dois primeiros capítulos de O centésimo em Roma.

I

O passo indolente do cavalo contrasta com a empertigada postura de quem o conduz. Para o quadrúpede, não importa se estão a chegar num quartel, no Palácio ou na casa da mãe de alguém. Para o bípede nos costados do animal, pesa a obrigação de simular dignidade; ele é um veterano, metido em seu fardamento completo: o báculo de madeira que o distingue como centurião, o elmo encimado pelo penacho escarlate, a capa voejando nos ombros, a couraça ornada com medalhas de mérito, as grevas de bronze protegendo as canelas, o calção escondido sob a túnica de lã e a sobretúnica de couro, as botas com cravos na sola, o gládio e o punhal pendentes na cintura e, preso ao braço, o escudo riscado pelos golpes do aço germano. Apenas um legionário sonolento, escorado na muralha, guarnece os portões abertos da Castra Praetoria, o quartel da guarda pretoriana e das coortes urbanas, no Monte Viminal. O centurião encara o sentinela com olhos de pai severo, ergue a mão ao elmo, fazendo a saudação dos legionários, e se anuncia:

— Publius Desiderius Dolens, centurião pilus posterior da segunda centúria do primeiro manípulo da quinta coorte da Legio Prima Germanica. Ave!

O legionário, sem ao menos desencostar o ombro do muro, leva as pontas dos dedos ao elmo e termina a saudação estendendo displicentemente o braço na direção do acampamento, como se dissesse: “Se quiser entrar, entre”.

Desiderius Dolens, dividido entre indignar-se ou achar graça do bravo guardião, entra vagarosamente no quartel.

Na praça diante do prédio principal, alguns homens se exercitam sob o comando de centuriões cujas bochechas vermelhas denunciam o amor pelo vinho. Muitos outros legionários, despidos de armas e elmos, entretêm-se com jogos de bola, apostam nos dados ou tomam sol deitados na relva. Mulheres lavam roupa e cantam em torno da fonte pública. Crianças correm, gritam e brincam de guerra.

Dolens, numa ligeira mirada, localiza o alojamento do intendente castrense. Apeia do cavalo e prende a rédea num pilar. Enquanto se ocupa disso, um menino de três anos arremete contra ele e começa a cutucá-lo na coxa com uma espada de madeira.

— Homem mau! — diz o menino. — Homem mau!

O olhar de Dolens reflui da correnteza da fera para o remanso do adulto:

— Você nem imagina quanto.



II

Publius Desiderius Dolens nasceu em Roma, numa viela da Suburra, no décimo oitavo ano de principado do imperador Tiberius. Era filho de Publius Desiderius Linus, um padeiro que, tendo enlouquecido, acreditava ser o divino Julius César.

A demência do pai humilhava Dolens, especialmente depois que o velho Linus adquiriu o hábito de perambular pelas ruas coroado de louros, apregoando éditos abstrusos e comandando legiões inexistentes, o que fez com que os vizinhos lhe dessem a alcunha de “Cesárculo” (o Cesarzinho). Desiderius Dolens tinha ímpetos homicidas toda vez que alguém ousava chamá-lo de “filho de Cesárculo”.

Linus desapareceu durante o Grande Incêndio do ano oitocentos e dezessete da fundação da Cidade. O corpo nunca foi encontrado. Mesmo assim, Dolens gastou dois mil sestércios nas honras fúnebres.

Desde muito jovem, Desiderius Dolens recusou-se a seguir os mandamentos do destino. E, em parte para fugir de uma família da qual se envergonhava, em parte por um candente desejo de ascensão social, ele se alistou nas legiões.

Como legionário, sobressaiu-se pela coragem e frieza nas situações mais difíceis. Cumpriu boa parte de seu tempo na Legio Prima Germanica, aquartelada na Germânia Inferior. Nessa província remota e insegura, seus companheiros de armas se referiam a ele como “o carniceiro de Bonna”.


Vita Dolentis, de Quintus Trebellius Nepos.

domingo, 7 de março de 2010

A vastidão do Império e o intrincado arranjo dos prédios públicos na cidade de Roma me fizeram pensar que o leitor gostaria de ter algum mapa ao alcance das mãos (ou dos cliques). Como sou teimoso adepto do “faça você mesmo”, rascunhei dois mapas, com boa vontade e nenhuma técnica, apoiando-me numa infinidade de modelos que reuni em pesquisas no Google, principalmente o Plan of Imperial Rome e o Plan of the Imperial Forums and their Vicinity, de William Robert Shepherd, o Map of Ancient Rome, de Samuel Ball Platner e o mapa The Roman Ascendency during the first Century A.D., de Robert Henlopen Labberton.
Fátima Agra fez a arte final.

Estes são os mapas que aparecem no livro (clique neles para vê-los num tamanho decente):



O Império:



A Urbe:

quarta-feira, 3 de março de 2010

Por que Roma?

O que deu em você para escrever um romance que se passa na Roma Antiga? É o que todo mundo me pergunta.

Mas por que não? Sou romano. E você também é, caro leitor.

Todos nós, nascidos no lado ocidental do mundo, somos romanos, porque nossa civilização, nossas crenças, nossas perguntas e nossas tentativas de resposta vieram de Roma. Sem Roma, não conheceríamos os gregos. Sem Roma, não falaríamos português. Sem Roma, não existiria um Brasil. Pelo menos, não o Brasil latino onde vivemos.

Aqui vai o texto da orelha de O centésimo em Roma, preparado pela Rocco:

O centurião Publius Desiderius Dolens, depois de anos combatendo bárbaros na Germânia, está de volta às apinhadas vielas de Roma. Estamos em 68 d.C. As legiões romanas dominam o mundo. Nero, o imperador insano, comanda as legiões — ou, pelo menos, imagina comandar.

Conhecido em toda parte como o Carniceiro de Bonna, o ambicioso centurião Dolens deseja bem mais que ser um plebeu temido e admirado por sua capacidade de matar. Quer ingressar na ordem dos cavaleiros, posição de prestígio no Império Romano e passaporte para o mundo dos nobres. Como não dispõe da fortuna necessária para se tornar cavaleiro — duzentos e cinquenta mil sestércios, não incluídos aí os subornos de praxe —, ele precisa contar com algumas articulações políticas, as quais, para seu desgosto, são rapidamente desfeitas quando seu benfeitor cai em desgraça.

Frustrado, resta-lhe o cargo de chefe da guarda dos urbanicianos, a ralé da polícia local. O prêmio de consolação faz com que Dolens continue tão plebeu quanto antes, e agora suas tarefas são controlar arruaceiros, escoltar figurões a prostíbulos e investigar a morte de um senador da República. Ao que tudo indica, o nobre senador foi assassinado por integrantes da misteriosa seita dos cristãos, fanáticos que cultuam um judeu crucificado.

Metido numa investigação claudicante e obcecado por ascender socialmente, Dolens — dono de uma ética própria e de um coração mais melancólico do que raivoso — é o irresistível anti-herói criado pelo escritor Max Mallmann para dar vida à época em que homens poderosos, na disputa pelo trono de Nero, travaram uma guerra que levou Roma, e com ela toda a civilização ocidental, à beira da destruição.

O centésimo em Roma é um bem-humorado romance histórico, escrito com base em sólida e apaixonada pesquisa. Roma, palco de disputas políticas e conspirações, ressurge com irônica vivacidade: “colossal e patética em seus monumentos de mármore pintados em cores grotescas, é um estridente turbilhão de pregoeiros, cambistas, mendigos, vendedores, taberneiros, adivinhos, advogados e mestres-escolas. Nenhuma pedra da Cidade conheceu jamais um instante de silêncio.”

segunda-feira, 1 de março de 2010

Pois é

Depois de quase cinco anos recolhido no tugúrio, tenho um livro novo para mostrar.

Chama-se O centésimo em Roma.

É um romance.

Dã...

O que é romance?

É um gênero literário filho da epopeia. Começou a nascer no século I, em Roma, com o Satyricon, de Petrônio; engatinhou no século X, no Japão, com o Genji Monogatari, de Murasaki Shikibu; pôs-se de pé no século XVII, na Espanha, com El ingenioso hidalgo don Quixote de la Mancha, de Cervantes. E virou rapazinho a partir do final do século XVIII, no mundo todo, como expressão preferencial do Romantismo, quando ganhou força, entre nós, lusófonos, o termo romance.

Segundo o Dicionário Houaiss, um romance é a prosa, mais ou menos longa, na qual se narram fatos imaginários, às vezes inspirados em histórias reais, cujo centro de interesse pode estar no relato de aventuras, no estudo de costumes ou tipos psicológicos, na crítica social etc.

A palavra romance costuma ser associada pelo senso comum às histórias de amor. Em boa parte das vezes, não é o caso. No catálogo dos sentimentos humanos, o amor, ao menos para mim, é o menos empolgante dos temas literários. O medo, a inveja, a cobiça e o ódio sempre me interessaram mais.

O centésimo em Roma fala de medo, de inveja, de cobiça e de ódio. E, talvez nalguma entrelinha, de amor.

É uma antiepopeia. E se passa no século I. Em Roma.


O centésimo em Roma, publicado pela Rocco, será lançado no dia 15 de abril, na Livraria da Travessa de Ipanema.

Esta é a capa:



Bonita, não?
Foi feita pelo estúdio Retina78.
E foi a partir dela que minha irmã Renata Mallmann formatou este blog.