Meus caros,
Vejam a entrevista que dei para Cíntia Borges, da Rocco:
Sempre gostei de História Antiga, como muita gente. Comecei a estudar sistematicamente o Império Romano depois do 11 de Setembro, como milhares de pessoas. Mas o que me motivou mesmo a escrever O centésimo em Roma foi a possibilidade de ter a primeira metrópole do mundo como cenário para uma narrativa. Sou um urbanoide. Cidades são animais que me interessam. Cidades rosnam e transpiram. Eu queria cheirar o suor da Roma do século I.
Vejam a entrevista que dei para Cíntia Borges, da Rocco:
Por que escolhi a Roma Antiga? Por que não? Eu sou romano. Você também. Todos nós, nascidos no lado ocidental do mundo, somos romanos, porque nossa civilização, nossas crenças, nossas perguntas e nossas tentativas de resposta vieram de Roma. Sem Roma, não conheceríamos os gregos. Sem Roma, não falaríamos português. Sem Roma, não existiria um Brasil.Por que escolheu a Roma Antiga para ambientar seu novo romance?
Sempre gostei de História Antiga, como muita gente. Comecei a estudar sistematicamente o Império Romano depois do 11 de Setembro, como milhares de pessoas. Mas o que me motivou mesmo a escrever O centésimo em Roma foi a possibilidade de ter a primeira metrópole do mundo como cenário para uma narrativa. Sou um urbanoide. Cidades são animais que me interessam. Cidades rosnam e transpiram. Eu queria cheirar o suor da Roma do século I.
Segundo Mario Quintana, “a verdade é uma mentira que se esqueceu de acontecer”, e Manoel de Barros declarou: “tudo o que eu não invento é falso”. Amparado nos dois, eu diria que tudo o que escrevo é verdade, mesmo que não tenha ocorrido. O sebo Nova Roma existe, a Roma do século I existiu e o carcomido exemplar da Vita Dolentis que me inspirou a escrever o romance é para mim tão tangível quanto os bytes que digito.O estopim de seu irônico romance seria a visita ao sebo Nova Roma (já aqui um delicioso sarcasmo), onde teria encontrado a obra que o instigou a remendar o passado?
Não existe verdade histórica. Depois de muito pensar a respeito, decidi que, para mim, qualquer coisa que não possa ser provada matematicamente é ficção. Assim, a História, a Filosofia, a Sociologia, a Antropologia, a Psicologia, a Mitologia e a Teologia seriam apenas subgêneros da narrativa ficcional ou, mais exatamente, seriam “literatura de gênero”, no mesmo patamar da narrativa policial, do romance histórico ou da ficção científica. Por outro lado, como não entendo nada de matemática, considero que a Física e seus derivados pertencem ao reino da magia.Recriar a pretensa obra de um historiador da Antiguidade afasta, aproxima ou provoca o leitor a pensar sobre o que é a verdade histórica?
O centésimo em Roma tem dois planos narrativos: um em terceira pessoa, que mostra o “presente” das tramas, e outro em primeira pessoa, em tom memorialístico, no qual Trebellius Nepos, cinquenta anos depois dos fatos, narra as peripécias que viveu ao lado do centurião Desiderius Dolens. Esses dois planos se alternam, se complementam e, de modo sutil, às vezes se contradizem: a narrativa em terceira pessoa vem com o calor do acontecimento; a narrativa em primeira se permite uma reflexão — por vezes deformadora — do acontecido.Trebellius Nepos, suposto autor do texto, é um primeiro distanciamento – e, por que não, alter ego – para que você pudesse livremente dar corpo ao romance?
Escolher Trebellius Nepos como narrador me deixou livre para criar um jogo de revelação e ocultamento com o verdadeiro protagonista, que é Desiderius Dolens. Aliás, meu alter ego no romance é o Dolens. Nunca havia criado um personagem tão parecido comigo. A principal diferença é que o estilo de vida dele é mais saudável que o meu.
No século XXI, mais que pós-modernos, somos pós-utópicos, como diz Flávio Carneiro. Googlados, blogados e twittados, somos todos inter e hiper textuais. Engendrando e assumindo citações, paráfrases e anacronismos, eu apenas ajo como uma criatura da nossa época. Para mim, seria impossível trabalhar de outro jeito. Como ignorar a sensação de que tudo já foi escrito?Em seu romance histórico, a intertextualidade dá as cartas a todo momento. Neste sentido, até que ponto ela enriquece, para quem lê, o registro histórico?
Não aconteceu nada em Nova York, em Londres, em Paris ou no Rio que não tenha acontecido séculos antes em Roma. Metrópoles são animais que nascem e crescem em variados climas e terrenos, mas conservam sempre o mesmo temperamento.Seriam as metrópoles de hoje – com seus jogos políticos, de interesses e idiossincrasias próprias –, guardadas as devidas proporções, “reedições” da Roma Antiga, a Cidade Eterna?
Nunca pensei em Dolens como policial, ou mesmo como soldado. Acho que ele próprio se considera uma espécie de servidor público polivalente. No ano 68 d.C., mandam-no investigar a morte de um senador, como já o haviam mandado tapar buracos nas estradas da Germânia ou trucidar bárbaros. São tarefas que ele precisa cumprir para garantir seu emprego. Dolens não é movido pelo senso de dever ou pelo desejo de justiça, mas pelo instinto de sobrevivência. Tenho certeza de que, se pudesse, ele preferiria passar a vida bem sossegado num gabinete, preenchendo relatórios. Infelizmente, o momento histórico o obriga a agir como herói — ou como vilão, dependendo do ponto de vista.Embora atrapalhado, o protagonista Desiderius Dolens é um sujeito preparado, mas que não consegue ascender à condição de nobre e acaba fadado a um cargo na mais baixa divisão da polícia local. De homem de potencial sucesso a escravo do fracasso, este típico anti-herói é uma crítica ao despreparo da nossa polícia?
Não sei se tudo está em Machado. Só sei que eu estou em Machado. Sem Machado, eu não existiria. E só espero que o Bruxo do Cosme Velho não se revire no túmulo com esta minha confissão.Em suas “Notas diversas”, ao fim do livro, você reafirma um senso comum de que “tudo está em Shakespeare”. No entanto, apesar das 12 citações do bardo inglês ao longo da narrativa, é em Machado de Assis que mora sua referência mais curiosa. Do Bruxo do Cosme Velho, você “rouba” o título, a epígrafe e o último parágrafo de seu livro. Seria esta uma forma de redenção tupiniquim de que também “tudo está em Machado”?
Quando você reproduz com fidelidade em seu livro um excerto de Machado de Assis, em pleno século XXI, que novos significados ambiciona provocar e contextualizar?
...e perguntarei mais se o Hamlet, o Otelo, o Júlio César, a Julieta e Romeu
têm alguma coisa com a história inglesa nem com o território britânico, e se,
entretanto, Shakespeare não é, além de um gênio universal, um poeta
essencialmente inglês.
Não há dúvida que uma literatura, sobretudo uma
literatura nascente, deve principalmente alimentar-se dos assuntos que lhe
oferece a sua região; mas não estabeleçamos doutrinas tão absolutas que a
empobreçam. O que se deve exigir do escritor, antes de tudo, é certo sentimento
íntimo, que o torne homem do seu tempo e do seu país, ainda quando trate de
assuntos remotos no tempo e no espaço. Um notável crítico da França, analisando
há tempos um escritor escocês, Masson, com muito acerto dizia que do mesmo modo
que se podia ser bretão sem falar sempre de tojo, assim Masson era bem escocês,
sem dizer palavra do cardo, e explicava o dito acrescentando que havia nele um
scotticismo interior, diverso e melhor do que se fora apenas superficial.
O motivo da citação? Muito simples: essas linhas me absolvem. Machado diz que poderei continuar — e serei inevitavelmente — brasileiro, mesmo me ocupando de “assuntos remotos no tempo e no espaço”, desde que eu mantenha e cultive o “sentimento íntimo” que me faz pertencente ao meu tempo e ao meu país — e à língua portuguesa, eu acrescentaria.
É libertadora essa lição machadiana. Afinal de contas, se ao escritor brasileiro é exigido empenho na construção de uma identidade nacional, por que não construí-la a partir de Roma, que é o berço de todo o Ocidente? Aqui no Brasil, já faz quinhentos anos que somos ocidentais. E latinos. E romanos.
Ave!
Ave!


Um comentário:
Parabéns pelo livro! Parabéns pelos comentários! É bom saber que existem que alguns romanos sobrevivem em meio a este mundo onde muitos desconhecem sua identidade porque desconhecem sua história e acabam por adotar uma "filosofia de vida" que consiste em sulfato de pó de tolice!
Só mais uma coisa, meu caro (ou meu delicioso, como diria Augusto a Tibério, mas, infelizmente, pegaria mal hoje): creio que a citação de Quintana não seja “a verdade é uma mentira que se esqueceu de acontecer”, mas “a mentira é uma verdade que se esqueceu de acontecer”. De outra forma não faz sentido. A verdade, creio, é uma mentira repetida mil vezes.
Ave, Maximus Mallmannus!!
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