O romance morreu? Não, meu filho, o romance continua vivo e
forte.
Aos que pararam aqui por acaso, convém esclarecer que uso a
palavra romance para me referir à narrativa longa, gênero literário ao qual os
francófonos chamam roman, os hispanófonos novela e os anglófonos novel.
Decidi fazer esse esclarecimento bobo para evitar que algum perdido nos atalhos
da web, porventura buscando confissões amorosas, se detenha nestas linhas mais
tempo do que o necessário para um clique do mouse.
O romance, como eu afirmava, está vivo. A crítica é que não
anda muito bem de saúde.
Em recantos cada vez mais minguados da grande imprensa
existe a crítica jornalística, ou, para definir com mais propriedade, a resenha,
que é um exercício de opinião. Uma opinião culta e bem formada, sem dúvida, que
se torna ainda mais deliciosa de ler quanto mais o jornalista se empenha em
debochar do livro, desde que, é claro, o leitor seja qualquer pessoa no mundo, menos
o infeliz autor do livro.
A crítica jornalística cumpre duas funções: distrai por
alguns minutos o assinante do jornal ou revista e propagandeia a obra
literária. Na hiperinflação de referências a que somos submetidos, o elogio e a
ofensa têm valor igual: divulgam.
Já a crítica propriamente dita, que é a crítica acadêmica,
feita a partir das universidades, pelos mais qualificados leitores, intoxicou-se
nos miasmas da Teoria Literária, e se alterna entre os padeceres da constipação
e os da disenteria.
Acadêmicos constipados não conseguem digerir nada que tenha
vindo depois da geração de 1930 ou da Semana de 22. Há casos graves que não
toleram nada produzido depois do século XVII.
Os disentéricos até conseguem mordiscar a literatura
contemporânea, mas passam mal e põem para fora borbotões logorreicos que
entopem os encanamentos e as conexões da lógica do discurso. Eles são mais
desagradáveis que os constipados porque fedem.
Vou citar dois exemplos de crítica disentérica.
Exemplo 1: uma professora acarpetada de diplomas atacou dois
poetas contemporâneos dizendo:
Se é inegável que a
retradicionalização frívola corresponde à desilusão com o processo
modernizador, com a falta de alternativas nacionais à integração capitalista,
isso não justifica a rendição à sociabilidade triunfante e o decorrente recalque
do subdesenvolvimento como problema estético-político.
Tentando forçar uma interpretação para além dos sintomas de
dislexia grave da professora, acredito que ela quis dizer que os dois poetas,
descontentes com o mundo contemporâneo, buscaram refúgio na tradição literária,
nos exemplos dos antecessores, e isso seria errado. Por que seria errado?
Impossível saber.
Exemplo número 2: um doutorando novinho afirmou:
A literatura, se serve para
alguma coisa, serve para contar a história da linguagem — não é a linguagem que
serve para contar uma história, qualquer que seja essa história.
Mais um caso sério de dislexia, e possivelmente de distúrbio
de déficit de atenção. Uma possível tentativa de traduzir essa meleca disléxica
é supor que ele afirma que a linguagem e a literatura servem apenas para fazer
referência uma à outra, num jogo de espelhos que dispensa a trama que é narrada
e o indivíduo que a lê. Sendo assim, nada nos resta senão abandonar as
bibliotecas e voltar a viver no topo das árvores. Uga-buga.
Outro esclarecimento, este bem mais importante que a
advertência aos que pararam aqui por acaso: sei que muitos professores da área
de literatura, nas mais diversas universidades, são imunes aos males da
constipação e da disenteria. Sei que esses professores não se apegam às
teoretices disléxicas e dialogam de modo produtivo com a literatura
contemporânea. A eles, dedico este desabafo como um alerta: por favor, não se
contaminem! Aos outros, os intoxicados da teoria, eu peço: juntem tudo que
vocês têm de Lukács, Habermas, Adorno e o catzo e enfiem no derrière
do Derrida.

